As conclusões do despacho de Pinto Monteiro

As conclusões do despacho de Pinto Monteiro

19-02-2010

As conclusões do despacho de Pinto Monteiro

V

10 Os elementos disponíveis e conhecidos apontam no sentido de que, das pessoas envolvidas nas escutas, apenas o Primeiro-Ministro é titular de um cargo político. As restantes exercem, em diversas qualidades, a sua actividade profissional nas áreas empresarial, económica e financeira ou da comunicação social. Esta circunstância não obsta, como dissemos, a que, se for caso disso, possam igualmente ser responsabilizadas, de acordo com o disposto no artigo 28º do Código Penal, pela prática do crime de atentado contra o Estado de direito, p.e p. pelo artigo 9º da Lei nº. 34/87, de 16 de Julho.

O conteúdo das dezenas de produtos revela procedimentos utilizados entre agentes económicos e financeiros, que poderão estar relacionados com empresários e jornalistas, numa ligação, porventura, pouco transparente. É, aliás, conhecida a apetência das forças político partidárias pela influência nos meios de comunicação social.

Este quarto poder ou contra poder como alguns lhe chamam é, efectivamente, um importante instrumento na transmissão e divulgação de ideias políticas.

Ao Procurador-Geral da República não compete, contudo, analisar eventuais responsabilidades políticas.

Questão diferente é a da responsabilidade criminal, a de saber se os elementos probatórios coligidos, nomeadamente os trechos das escutas que acabámos de realçar, ultrapassam os limites geralmente aceites do relacionamento empresarial e da luta político-partidária e contêm indícios de prova que justifiquem a instauração de procedimento criminal pela prática de crime de atentado contra o Estado de direito, p. e p. no artigo 9º da Lei n.º 34/87, de 16 de Julho.

Consideramos que não.

10.1 Não se vê nos trechos das escutas constantes das diversas alíneas do n.º 8 indícios de tentativa de destruição, alteração ou subversão do Estado de Direito, como exige o tipo legal de crime em causa.

A compra pela PT de capital social da Media Capital (dona da TVI) é abordada com algum detalhe em conversações que Rui Pedro Soares mantém com Armando Vara e Paulo Penedos.

Uma delas [produto n.º 460, alínea g) do n.º 8] assume relevo neste contexto, atentos o seu conteúdo e a ênfase que lhe é conferida no despacho de 22 de Junho de 2009 do Procurador da República do DIAP da Comarca do Baixo Vouga.

Nesta conversação (efectuada a 21 de Junho de 2009 de Rui Pedro Soares para Armando Vara) é sobretudo o primeiro que informa o segundo dos termos do negócio projectado e responde às suas perguntas (sobre o destino de José Eduardo Moniz, sobre o financiamento, sobre "como é com o poder" ou sobre a situação de Manuela Moura Guedes). É neste quadro que surge a afirmação de que "Armando Vara mostra-se preocupado com as consequências se se souber que há esquema", acrescentando-se logo a seguir que "Rui Pero confirma que 'nós não estamos inocentes nesta coisa do Benfica' e que fez com que isso desgastasse José Eduardo Moniz".

Quando nesta conversação se fala em "esquema", pretende-se, no contexto, abranger, nas suas diversas componentes e implicações, tão-só o negócio PT/PRISA. Ora, não se pode descontextualizar a expressão nem atribuir-lhe uma dimensão conspirativa - traduzida na "existência de um plano em que está directamente envolvido o Governo para interferir no sector da comunicação social" - que, abranja igualmente propósitos de interferência na titularidade dos jornais Correio da Manhã e Público.

Na verdade, não se mostra que a referência incidentalmente feita a estes dois jornais na parte final da conversação mantida entre Rui Pedro Soares e Armando Vara reflicta o propósito mais vasto de um "plano" de interferência na comunicação social por parte do Governo, com o objectivo de restringir ou cercear a liberdade de expressão e de destruir, alterar ou subverter o Estado de direito.

Em primeiro lugar, nas referências, explícitas ou implícitas, feitas ao Primeiro-Ministro nos produtos das alíneas a), g), l), m), o), p), s), f), u), v), e z), do n.º 8 não existe uma só menção de que ele tenha proposto, sugerido ou apoiado qualquer plano de interferência na comunicação social. Não resulta sequer que tenha proposto, sugerido ou apoiado a compra pela PT de parte do capital social da PRISA, tal como se não mostra clarificado o circunstancialismo em que teve conhecimento do negócio. Ao invés, há nas escutas notícia do descontentamento do Primeiro-Ministro, resultante de não terem falado com ele acerca da operação; "devia ter tido a cautela de falar com o Sócrates... não falei e o gajo não quer o negócio. Era isto que eu temia. Acho que o Henrique não falou com ele, o Zeinal não falou com ele... eh pá... agora ele está 'todo fodido'. 'Está todo fodido e com razão'" [n.º 8, alínea u), produto nº 5291, de Rui Pedro Soares para Paulo Penedos; v. ainda os produtos das alíneas x) e z)].

Quanto a tal negócio, é citado nas escutas um outro membro do governo, nestes termos: "o Lino diz que não quer saber, que decidam o que quiserem... ninguém se atravessa... o Zeinal faz o que quiser, se quiser faz o negócio se não quiser não faz o negócio" [n.º 8, alínea v), produto n.º 5292, de Rui Pedro Soares para Paulo Penedos].

Em segundo lugar, sem prejuízo da enumeração da alínea m) do n.º 8, o produto n.º 460 insere a única alusão feita nas escutas ao jornal Público. Quanto ao Correio da Manhã, refere-se no produto n.º 4051, de 17 de Junho de 2009 [n.º 8, alínea c)] que o próprio Paulo Fernandes "estava a tentar comprar esses 30% da TVI"; "não conseguindo... está disponível para vender o Correio da Manhã"; nos produtos nº 607 e 620-624, de Fernando para Armando Vara, todos de 24 de Junho de 2009 [alíneas p) e q)], fala-se na compra deste jornal, mas numa perspectiva de reestruturação do grupo Ongoing e do acautelamento dos créditos do BCP e CGD sobre Cofina.

Há ainda a menção a "um dado novo - as rádios vão ser compradas pela Ongoing e pelo genro de Cavaco" [n.º 8, alínea r), conversação de Rui Pedro Soares para Paulo Penedos], menção pontual e de todo inconsistente.

Como falar, perante estes elementos, na "existência de um plano em que está directamente envolvido o Governo para interferir no sector da comunicação social"?

10.2 Não se ignora que o Jornal Nacional de 6ª da TVI (e, em menor escala, também o jornal Público) foram objecto de viva contestação por parte de elementos do Partido Socialista (e do próprio Primeiro-Ministro), sendo de admitir que estes meios de comunicação social terão, eventualmente, sido objecto de pressões no sentido de não adoptarem uma linha editorial hostil ao Governo.

Não pode, porém, confundir-se a adopção (pelo partido e membros do Governo e pelos partidos da Oposição) de procedimentos comummente aceites no sentido de se obter uma "imprensa favorável", com o recurso a comportamentos criminalmente puníveis. Ainda que se fale de "interferências" (termo amiúde utilizado por agentes políticos, como se vê nos recortes de imprensa), entendemos que a tentativa de alteração da linha editorial de um órgão de comunicação social, a ter existido [cf. n.º 8, alínea f), produto n.º 4420] não pode ser confundida (nem quaisquer elementos de prova apontam nesse sentido) com o propósito de subverter o Estado de direito.

10.3 Outros produtos, resultantes nomeadamente de conversações entre Paulo Penedos e Rui Pedro Soares, incluem referências a contactos havidos entre elementos da PT e da PRISA.

Mas também não existe nos elementos disponíveis qualquer referência a acções ou omissões de titulares de cargos políticos ou de outras pessoas, que se mostrem de algum modo idóneos para "tentar destruir, alterar ou subverter o Estado de direito constitucionalmente estabelecido, nomeadamente os direitos, liberdades e garantias estabelecidos na Constituição da República" (artigo 9.º da Lei n.º 34/87).

10.4 Interessa frisar um último aspecto.

Resulta da análise global dos documentos recebidos que a operação PT/PRISA tanto é objecto de menções equívocas, por ex. ao nível de engenharia financeira que lhe estaria associada [n.º 8, alíneas a) e b)] como é justificada em termos económicos e empresariais, quer por analistas [n.º 8, alínea ee), produto n.º 5565], quer pela PT, designadamente pelo presidente do Conselho de Administração, afirmando-se que a sua não concretização "parte do cumprimento de ordens contra os interesses da empresa "[n.º 8, alínea z), produto n.º 5432]" e que é escandaloso como é que não somos nós a comprar e vai ser a Cofina ou a Ongoing" [n.º 8, alínea aa), produto n.º 5467].

Não obstante ter sido insistentemente justificado em termos empresariais por altos responsáveis da PT, o negócio com a PRISA acabou por não se concretizar, por, no exercício dos direitos resultantes da golden share por parte do Estado, ter sido inviabilizado pelo Governo, vindo, mais tarde a Ongoing a assumir uma posição accionista na Media Capital.

Conclui-se assim, que:

a) Não existem no conjunto dos documentos examinados elementos de facto que justifiquem a instauração de um procedimento criminal contra o Primeiro-Ministro José Sócrates e/ou qualquer outro dos indivíduos mencionados nas certidões, pela prática do referido crime de atentado contra o Estado de Direito;

b) Entregues que se encontram as certidões e CD's ao Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, aguardar-se-á que se pronuncie sobre os actos relativos à intercepção, gravação e transcrição das conversações e comunicações em que intervém o Primeiro-Ministro.

xxx

A parte decisória do presente despacho vai ser divulgada pelos meios de Comunicação Social nos termos do artigo 86º n.º 13 do Código do Processo Penal.

A fundamentação do presente despacho manter-se-á abrangida pelo segredo de justiça enquanto o processo de onde foram extraídas as certidões estiver sujeito a tal regime.

Por confidencial envie-se a cópia ao Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e ao Senhor Procurador-Geral Distrital de Coimbra.

18.11.2009

O Procurador-Geral

da República

Fernando José Matos

Pinto Monteiro

O dia em que todos os interesses se juntaram na PT

Face oculta

O dia em que todos os interesses se juntaram na PT

A Portugal Telecom une os vários intervenientes nas escutas. Estavam praticamente todos na assembleia geral que derrotou a oferta da Sonaecom sobre a PT, no dia 2 de Março de 2007, como se nas fotografias que o Negócios recupera aqui.


Pedro Santos Guerreiro

psg@negocios.pt

Elisabete  de Sá

esa@negocios.pt

Pelos cornos morre o peixe?

Pedro Santos Guerreiro

Pelos cornos morre o peixe?

psg@negocios.pt


O processo "Face Oculta" tem revelado suspeitas de fraudes em várias empresas do Estado e envolvendo "boys". Mas é na PT que a patifaria atingir grau maior: houve saque.

O processo "Face Oculta" tem revelado suspeitas de fraudes em várias empresas do Estado e envolvendo "boys". Mas é na PT que a patifaria atingir grau maior: houve saque.
Na Refer, CP, Carris, Estradas de Portugal (lembremo-nos: tudo começou com desvios de sucata) estão em causa pequenas máfias internas. Uma pesagem errada, um carregamento que desaparece, uma cancela que se abre de olhos fechados. Uma orquestra de pequenos larápios que as administrações não desactivaram.
Na EDP, está envolvido um administrador de uma participada imobiliária, que já foi discretamente saneado. É na REN, BCP e PT que estão envolvidos administradores de topo: José Penedos, Armando Vara, Rui Pedro Soares e Soares Carneiro. Todos de carreira política.
Na REN, Penedos suspendeu o mandato e a empresa prossegue, sob a competente batuta de Rui Cartaxo. No BCP, Vara está suspenso sem tensão na administração: Santos Ferreira e Paulo Macedo, os administradores que já se pronunciaram sobre o assunto, foram até solidários com Vara.
É na PT que as suspeitas da "Face Oculta" chegam mais alto na hierarquia. E é lá que essa hierarquia não dobra nem a língua nem a coluna: assumindo-se "encornado" por dois administradores, Henrique Granadeiro está a deixar claro que o que se passou na PT foi uma traição. A empresa foi usada.
Granadeiro já uma vez acusou Fernando Soares Carneiro de "quebra de confiança", quando este "desviou" sem autorização dinheiro de fundos da PT para fundos da Ongoing. Falou de "terrorismo" quando actas da PT foram publicadas no diário da Ongoing. E convidou Soares Carneiro a demitir-se, gesto de decência que o alapado administrador ignorou.
É agora a vez de a Rui Pedro Soares ser apontada a porta de saída. Como já se percebeu, o país está a ficar cheio de pessoas que nem obviamente se demitem. Por isso Henrique Granadeiro tem de ser mais consequente.
Granadeiro já uma vez deu um murro na mesa - e não chegou. Agora, usando os seus termos, tem de dar um murro nos cornos. Este clã Soares tem de sair da PT, ou pelo seu pé, ou ao pontapé. Se estas duas demissões não acontecerem, outra tem de suceder: a do próprio Granadeiro. Se as suas palavras não valem nada, então "chairman" tem de mudar para "shelfman": é uma prateleira.
Henrique Granadeiro e Zeinal Bava podem não gostar de remar ao mesmo ritmo, mas estão juntos no mesmo barco. A ser verdade o que está publicado, foram ambos "encornados", enganados pelos administradores executivos que o Estado lá infiltrou, que congeminaram intentos políticos, usaram os seus presidentes, até lhes tiraram "o sonho", como é dito.
Está hoje documentado o que se insinuava: a PT tem intrusos políticos e accionistas que vivem bem com isso ou até muito bem à custa disso. Estão hoje todos calados.
Alguém acredita hoje que o Governo não teve mesmo nada a ver com o chumbo da OPA da Sonae? É curioso, aliás, ver as fotos que o Negócios hoje publica desse crucial dia, em que em assembleia geral a PT aniquila a OPA. Está lá toda a gente: dos que servem a empresa aos que se servem dela. No segundo seguinte à vitória, muitos subiram ao palco da administração de Granadeiro e Zeinal Bava para passarem a fazer parte da "equipa dos vitoriosos". Soubemos então que ganharam. Sabemos agora o que ganharam.

psg@negocios.pt

Granadeiro sentiu-se "encornado"

Escutas Face Oculta

Granadeiro sentiu-se "encornado"

Granadeiro diz que foi o último a saber do envolvimento da PT no alegado plano do Governo para controlar os media. E revela um e-mail onde o advogado João Carlos Silva diz que as escutas são "falsas". LEIA A TROCA DE E-MAILS

Clara Teixeira

18:02 Sexta-feira, 12 de Fev de 2010

Henrique Granadeiro, presidente não executivo da Portugal Telecom, sente-se "encornado" com a descoberta de que a PT fazia parte de um alegado plano do Governo de José Sócrates para controlar a Comunicação Social, revelado nas escutas publicadas pelo semanário "Sol". Granadeiro "não sabia nem desconfiava" do envolvimento da empresa nesse plano, mas admite: "Pode ter acontecido, à minha revelia". À pergunta da VISÃO online sobre o que sentiu depois de ter tomado conhecimento dos factos divulgados pelo "Sol", respondeu: "Encornado!". E, de seguida, riu-se.

Granadeiro disse já ter falado sobre o assunto com Zeinal Bava, presidente executivo da PT, mas escusou-se a revelar o teor da conversa. Garantiu que "ninguém se demitiu, mas também ninguém é arguido". As restantes explicações reservou-as, em primeiro lugar, para a própria empresa e, de seguida, para o Parlamento, caso venha a ser chamado pelos deputados para prestar esclarecimentos. Recordou ainda que sempre se mostrou contra o envolvimento da PT na compra da TVI, por discordar do regresso da empresa ao negócio dos conteúdos. O gestor chegou a ser presidente da Lusomundo Media, que consistiu na primeira incursão da PT nos conteúdos.

Henrique Granadeiro referiu ainda um e-mail recebido do advogado e ex-presidente da RTP, João Carlos Silva, às 12h31m da manhã de hoje, onde este garante ao chairman da PT que a parte das escutas onde os nomes de ambos são citados é "falsa". A VISÃO transcreve de seguida a troca de e-mails:

TROCA DE EMAILS

From: Henrique Manuel Fusco Granadeiro
Sent: sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010 16:53
To: 'João Carlos Silva'
Subject: RE: Para entrega ao Sr. Dr. Henrique Granadeiro

Sr. João Carlos Silva,

Agradeço a sua informação. De facto, achei muito estranho que V.Exa. se tivesse referido a mim em tais termos, quando não houve nunca entre nós qualquer contacto nem sobre este, nem sobre outro qualquer assunto.

Tendo tal falsidade que lhe é atribuída sido publicada, agradeço-lhe que torne público o seu desmentido.

Com os melhores cumprimentos,

Henrique Granadeiro

From: João Carlos Silva [mailto:XXXXXXXXX]
Sent: sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010 12:31
To: Maria Cristina Luna Pais Dias
Subject: Para entrega ao Sr. Dr. Henrique Granadeiro

D. Cristina Dias, agradeço o obséquio de entregar esta comunicação ao Exmo. Sr. Dr. Henrique Granadeiro:

Exmo. Sr. Dr. Henrique Granadeiro,

O Jornal SOL divulga hoje, na página 6, uma alegada escuta de uma conversa que teria ocorrido entre mim e o Dr. Paulo Penedos. Aí é referido: "João Carlos Silva garante que Henrique Granadeiro apenas se portou bem porque 'lhe ligou cinco vezes e exigiu que ele falasse com o chefe, que já estava aos berros'".

Não posso deixar de o informar que é completamente falso que eu alguma vez tivesse participado em qualquer conversa telefónica ou pessoal, seja com quem for, que envolvesse ou referisse o nome de V. Exa., seja a que título for . A alegada escuta não existe, não pode existir porque a conversa telefónica que relata nunca existiu. O que vem no jornal é falso.

Não só, como ambos sabemos, eu nunca tive o prazer de estabelecer qualquer contacto telefónico com V. Exa., como nunca disse a ninguém que o tinha feito (afirmação que só poderia fazer se eu estivesse a mentir - o que não ocorreu).

Já agora, informo-o também que a outra conversa que é relatada no mesmo Jornal com a minha intervenção também não corresponde à verdade.

Peço desculpa de o incomodar sobre este assunto mas, tanto pela consideração que me merece apesar de só nos conhecermos socialmente, como pelo meu interesse em esclarecer esta questão perante si, não poderia deixar de lhe transmitir esta informação, a qual poderá ser utilizada por V. Exa. como entender.

Com muita consideração e os meus melhores cumprimentos,  

JOÃO CARLOS SILVA
Advogado
João Carlos Silva & Associados - Sociedade de Advogados, R.L.
Av. Marechal Gomes da Costa, 511
4150-358 PORTO
PORTUGAL

Vítor Constâncio defende aumento dos impostos indirectos, como o IVA

Governador do Banco de Portugal diz que ficou "surpreendido" pelos valores do défice

Vítor Constâncio defende aumento dos impostos indirectos, como o IVA

02.02.2010 - 14h03

Por Inês Sequeira

Rui Gaudêncio

Vítor Constâncio

O governador do Banco de Portugal (BdP), Vítor Constâncio, defendeu hoje que os impostos indirectos, como o IVA, vão ter de aumentar nos próximos anos para se conseguir reduzir o défice orçamental para uma meta abaixo de três por cento do PIB (produto interno bruto) em 2013.
Vítor Constâncio, que falava à saída de uma conferência sobre o Estado e a competitividade da economia portuguesa, confirmou como exemplo de uma medida necessária a eventual subida do IVA para 21 por cento.
"Estamos numa situação em que o ponto de partida é agora mais difícil para chegarmos a 2013 com um défice inferior a três por cento do PIB, nesse contexto presumo que alguma coisa terá de ser feita", afirmou o governador do banco central.
Constâncio chamou também a atenção para a necessidade de "continuar a trabalhar" em políticas económicas como a reforma da Segurança Social ou o Código do Trabalho e não colocar "demasiadas expectativas nos Orçamentos do Estado". "É muito importante reduzir os valores da energia e das telecomunicações para as empresas", exemplificou.
O governador do BdP admitiu que ficou "surpreendido" pelo valor do défice estimado pelo Governo para 2009 (9,3 por cento do PIB) e que é "muito importante" que se verifique a redução desse valor em 1 ponto percentual em 2010, de acordo com a previsão da proposta de Orçamento do Estado.

Governo discorda de Constâncio sobre o aumento dos impostos indirectos

OE 2010

Governo discorda de Constâncio sobre o aumento dos impostos indirectos

02.02.2010 - 15h30

Por PÚBLICO

Daniel Rocha

Vieira da Silva

O ministro da Economia, José António Vieira da Silva, afirmou hoje que o Governo não subscreve a opinião do governador do Banco de Portugal ao defender que poderá ser necessário aumentar os impostos indirectos.
“É uma opinião do doutor Vítor Constâncio, não é uma opinião que o Governo subscreva”, disse o ministro da Economia à margem de uma conferência promovida pela Antena 1 e Jornal de Negócios com o tema “O Estado e a competitividade da economia portuguesa”.
“Julgo que o Governo deu já, no Orçamento para 2010, um sinal bem claro daquilo que entende serem os instrumentos necessários para repor Portugal numa trajetória daquilo que vinha seguindo”, de consolidação orçamental, explicou o ministro.
Confrontado com as declarações do ex-ministro das Obras Públicas Mário Lino, segundo as quais a opção pela energia nuclear deveria voltar a ser uma opção, Vieira da Silva recusou a opção e apontou as renováveis e a melhoria da eficiência energética como o caminho a seguir.
“Não acho, por várias razões. Portugal tem conseguido, com sucesso, alternativas que não passam pela energia nuclear”, disse, afirmando que até o custo afasta o nuclear como opção.
Durante a sua intervenção na conferência, Vieira da Silva defendeu que é imperativo no curto prazo estimular a economia, mas que este tem de acontecer com um necessário controlo das contas do Estado sob pena de agravar os custos de financiamento externo da economia.
Vieira da Silva elegeu ainda o carácter estrutural do desequilíbrio externo, a recuperação do equilíbrio das contas públicas e acelerar a mudança no actual contexto económico global como os maiores constrangimentos ao desenvolvimento da economia portuguesa, defendendo, no entanto, que a experiência na redução do défice dos últimos anos tem de ser valorizada.

Vítor Constâncio e os impostos

Regresso a 2005

Publicado por JoaoMiranda em 3 Fevereiro, 2010

Constâncio diz que situação das contas públicas é pior do que esperava

Constâncio já fala em “medidas difíceis”

Vem aí aumento de impostos

Impostos não vão subir, garante José Sócrates

Impostos não vão subir, garante José Sócrates

Ontem

O primeiro-ministro contraria governador do Banco de Portugal e sustenta que o Governo fará a consolidação orçamental nos próximos anos com base na redução da despesa.

José Sócrates contraria, assim, a tese de Vítor Constâncio, Governador do Banco de Portugal, ao afastar qualquer aumento de impostos, considerando que tal seria negativo para a economia portuguesa.

José Sócrates falava aos jornalistas antes de um almoço na residência oficial de São Bento com 12 mulheres representativas de diversos quadrantes da sociedade civil e no qual também estiveram presentes as ministras e secretárias de Estado que fazem parte do actual executivo.

"Vamos fazer uma consolidação orçamental baseada na redução da despesa e não através de aumento de impostos, porque isso seria negativo para a economia portuguesa", declarou José Sócrates aos jornalistas, depois de confrontado com uma posição pública hoje assumida pelo governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio.

Segundo José Sócrates, esta estratégia orçamental do executivo é também partilhada pelo próprio governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio.

"O senhor governador disse apenas que, no futuro, tinha uma perspectiva que talvez isso [aumento de impostos] tivesse necessidade de se fazer. Mas ele concorda que este não é o momento para aumentar impostos, porque isso teria uma consequência negativa no emprego e na actividade económica", sustentou Sócrates, num comentário à posição do governador do Banco de Portugal.

Entrevista a Emídio Rangel

Emídio Rangel: "Comunicação Social faz oposição a José Sócrates"

domingo, 28 de Junho de 2009 0:02

Amado por muitos, odiado talvez por mais, que a liberdade tem preço – e é elevado. Emídio Rangel, 62 anos, diz ser uma espécie de homem maldito. Como os poetas: desobedece para vingar a moral. Desengane-se quem pensa que perdeu: "Nunca falhou e é feliz”.

Esta semana estourou mais uma polémica nas mãos de José Sócrates: ter-se tornado pública a intenção da Portugal Telecom (PT) adquirir 30% do grupo espanhol Prisa, que detém a TVI. O governo tentou nacionalizar aquela estação?

Não, claro que não. Tanto quanto se sabe - e ainda não se sabe tudo -, foi há já muito tempo encarada a hipótese de a PT poder comprar uma participação de 30% à Prisa. A questão foi colocada pela Prisa às autoridades nacionais, tal como quando esse grupo espanhol veio para Portugal também colocou a questão da sua vinda aos governantes portugueses. Mas são os órgãos decisores da PT quem tem travado essa discussão com os responsáveis da TVI. Agora, estão a pretender misturar uma coisa com a outra, uma conversa tida em Janeiro com uma discussão tida este mês, como se porventura uma e outra fossem a mesma coisa. Isto é manipulação de informação, querem intoxicar a opinião pública.

Refere-se à manchete do Expresso desta semana, que diz que o Governo já conhecia o negócio PT/TVI desde o início do ano?

Exactamente. É manipulação de informação. De resto, isso é uma coisa em que o Expresso é useiro e vezeiro. O assunto foi falado em Janeiro por iniciativa da própria Prisa, mas de Janeiro até aqui já passou algum tempo. Agora, aconteceu uma discussão secreta, uma avaliação da situação por parte da PT e da Prisa, mas da qual não resultou qualquer conclusão, não foram tomadas decisões, não chegaram sequer a acordo sobre um valor, um preço. Mas quando se pretende ser manipulador e sensacionalista, e jogar a favor de outros objectivos, evidentemente que não custa nada fazer esta manchete.

Portanto, acredita que José Sócrates não estava mesmo a par da recta final do negócio?

Esta recta final não é final. O assunto foi abordado sem nenhuma consequência. Não se chegou a acordo, não houve uma plataforma, um esboço de negócio, nada. Agora, os assuntos podem ser discutidos, todos os negócios podem ser postos em cima da mesa e debatidos entre duas entidades para avaliar o seu interesse.

Mas muitos consideram que seria mais um assunto político do que um negócio. Para si, ele fazia sentido do ponto de vista estritamente económico?

É indiscutível que para a PT tem toda a importância aquela participação minoritária. Não sei como pode haver tanta especulação, porque é óbvio que uma participação minoritária não dará nunca, em lugar nenhum do mundo, direito a que esse parceiro tenha capacidade de inverter a vontade da maioria. Do outro lado estão 70%; deste lado, eventualmente, estariam 30%. Portanto, a Prisa, que é um dos maiores grupos europeus a nível da comunicação, ia deixar-se enganar por quem tem 30%? E eram esses 30% a subsituiur o director geral, a alterar a linha editorial? Não faz sentido. De resto, o Henrique Granadeiro e o próprio Zeinal Bava vieram a público explicar isso.

Não acha que ambos traíram a confiança política do Governo?

Acho que não. No fundo, o Governo tem capacidade de decisão, mas é só em última instância. Se de cada vez que a PT tem que produzir uma negociação ou inicar uma discussão com quem quer que seja, em Portugal, nos EUA, ou em África, onde está bastante implantada, se de cada vez que tivesse de tomar uma decisão fosse a correr para o Governo perguntar o que ele acha, evidentemente que a PT seria uma empresa minguada, sem nenhuma capacidade de acção, ou de fazer o que quer que fosse. A PT tem os seus órgãos próprios, além da comissão executiva presidida por Zeinal Bava, e do conselho de administração presidido pelo Henrique Granadeiro. São eles que, em primeira instância, tomam as decisões da PT.

Mas o Estado tem sempre a golden share, que lhe confere poderes acrescidos...

Mas é em última instância, em questões extraordinariamente marcadas por um vínculo estratégico. Aí, o Estado pode eventualmente usar a sua golden share para travar um negócio. Mas só na parte final, depois de tudo estar decidido. Ninguém vai imaginar que uma empresa como a PT, que está cotada em bolsa em Portugal e em Nova Iorque, que é a mais exigente praça mundial a esse nível, que uma empresa desse género funcione desse modo. Ninguém vai acreditar que a PT, que é uma empresa internacional, que exerce a sua actividade em muitos países, possa estar manietada ou ficar à espera dos recados do Governo para poder agir. É um absurdo completo! Querem atirar areia para os olhos das pessoas. É evidente que a PT faz os seus negócios, as suas acções, e só se porventura for uma questão eminentemente estratégica, que conflitue com interesses primoridiais do país, é que o Governo pode travar isso. Tirando isso, o Governo não tem participação em nenhuma estrutura activa da PT. É manipulação, manipulação, manipulação!

Mas não é, aparentemente, isso que está em causa: um conflito de interesses? De resto, foi o Emídio Rangel quem escreveu que “a inaptidão do PS para gerir a comunicação social é conhecida desde Abril de 1974....”

Sim, mas isto não tem nada que ver com Comunicação Social; isto é um negócio. A PT sabe qual é a importância deste negócio para a sua plataforma, está em concorrência directa com a proprietária da ZON TV Cabo, que é a maior plataforma que temos no país, e sabe que só se desenvolverá se tiver do seu lado uma estação de televisão e sobretudo uma estação com capacidade de produção de conteúdos, como é o caso da TVI. Não é o caso da SIC, que está num estado lastimável, feita em bocados, no chão, de rastos. Isto não tem nada que ver com a Comunicação Social. Quando critico - e mantenho todas as minhas críticas ao PS em relação à gestão da Comunicação Social -, tem que ver com aquilo que se passa com as entidades reguladoras, tem que ver com aquilo que, de certa forma, faz o ministro da tutela [Augusto Santos Silva], que é absolutamente inapto para decidir estas matérias, tem que ver com um conjunto planeado de leis e de normas, que são inaceitáveis. As minhas críticas mantêm-se todas de pé e nada disso tem que ver com este negócio de conteúdos da PT.

Mas depois de tudo o que José Sócrates disse sobre a TVI, repetidas vezes, não seria de facto, como tem sido dito, muita ingenuidade política não prever um terrível impacto na opinião pública?

Não sei o que as pessoas pensam; sei que as pessoas são induzidas a pensar determinadas coisas. Hoje, claramente, José Sócrates não tem a Comunicação Social do seu lado. É vergastado pela generalidade da Comunicação Social todos os dias. Mas também não misturo uma coisa com a outra. Estou totalmente de acordo com as críticas que José Sócrates fez ao Jornal Nacional de sexta-feira, conduzido por Manuela Moura Guedes. Totalmente de acordo! E qualquer jornalista que tenha dois centímetros de massa cinzenta, olha para aquilo e para o seu código deontológico, e vê como aquilo é um atropelo permanente ao que é o jornalismo. Só que agora, nos tempos que passam, vale tudo no jornalismo. Mas para mim não vale tudo. Ali, à sexta-feira, fazem-se as maiores barbaridades. E não foi só com Sócrates. O bastonário da ordem dos advogados [Marinho Pinto] teve que explodir depois de ser mal tratado. E isso é frequente. Qualquer jornal daqueles à sexta-feira é assim: fazem-se processos de intenções, ouve-se só uma das partes, há opinião misturada com notícias... Enfim, aquilo é tudo o que se não deve fazer em jornalismo. Sou professor da Universidade Nova e digo sempre aos meus alunos que uma boa forma de saberem o que não é jornalismo é verem o Jornal Nacional da TVI à sexta-feira.

Isso faz de José Eduardo Moniz o verdadeiro líder da Oposição?

Evidentemente, não vou comparar coisas que não são comparáveis. Ele dirige uma estação de televisão, que é líder de mercado, e tem necessariamente o peso e o resultado dessa realidade. Ele até pode interferir na solução A ou B, mas, independentemente disso, não vou misturar a acção política dos líderes dos partidos com a acção de um director geral de uma estação de televisão ou com a acção do director do Expresso...

Ou do Público...

Sim, ou do Público. Mas que é sistemático, é. Há, de facto, hoje, oposição da Comunicação Social em geral a José Sócrates.

Em que momento é que José Sócrates perdeu a Comunicação Social?

Quando perdeu o seu estado de graça como governante e quando hostilizou, de certo modo, uma parte dessa Comunicação Social. É indiscutível. Ele fê-lo - e fê-lo mal, não o devia ter feito. Mas no caso da TVI, percebo inteiramente aquela explosão, aquela manifestação explícita de alguém que sabe e que sente – e quem não se sente não é filho de boa gente. Aquele serviço é uma vergonha e não tem respeito nenhum pelas regras éticas e deontológicas que os jornalistas deveriam respeitar em qualquer circunstância.

Esta sucessão de casos polémicos – Independente, Freeport, etc - poderá custra a vitória ao PS nas próximas eleições legislativas?

Não sei. De facto, não vou minimizar a importância dos órgãos de Comunicação Social, que têm importância na formação de uma certa opinião pública. O drama não são aqueles que lêem jornais; aqueles que os lêem, e ouvem rádio e vêem televisão, e se interessam realmente pelos assuntos, em pouco tempo acabam por fazer um ponto da situação: distinguem as verdades das mentiras, verificam quem manipula e quem não manipula, etc. O drama é que, em Portugal, a Comunicação Social não chega a muita gente. E a maior parte do eleitorado não lê, infelizmente, jornais. Portanto, o que funciona é esta onda dos títulos especulativos e manipuladores. Aquele título [do Expresso] fica a ribombar e tem claramente influência na opinião pública. Até que ponto isto pode alterar o resultado das eleições, não sei. Até porque lembro-me perfeitamente de Cavaco Silva ter ganho as eleições numa altura em que, tal como Sócrates, estava com a Comunicação Social toda contra ele, todos os dias. E não foi a Comuncação Social que o impediu de ganhar. Não sei o que acontecerá agora, não tenho jeito para adivinhar o futuro nem tenho uma bola de cristal.

Pela primeira vez, desde as europeias, uma sondagem (da Marktest para o Semanário Económico), dá ligeira vantagem ao PSD (35,8% contra 34,5%), partido cuja líder, escreveu, “não gosta de comícos nem de debates nem de política”. Mas os portugueses, se calhar, começam a gostar dela, ou não?

Acho francamente que até hoje a dra. Manuela Ferreira Leite ainda não disse – e vamos saber hoje quando são as eleições legislativas [entrevista realizada de manhã, antes de Cavaco Silva ter anunciado eleições legislativas para 27 de Setembro] – o que quer fazer no país. Sabemos que ela tem umas ideias muito liberais, que lhe interessa privatizar quase todo o ensino e quase toda a saúde, o que seria, nas condições em que o país se encontra, do ponto de vista económico, uma verdadeira tragédia, mas enfim. Como é que os portugueses podem confiar a governação do país a uma líder política que não diz o que quer fazer, qual o rumo que vai seguir, o que pretende fazer em relação às coisas mais importantes e mais decisivas. Fala sempre do TGV e do aeroporto, mas há muitas mais coisas, a vida do país não se esgota no TGV nem no aeroporto. E mesmo isso é importantíssimo para desenvolver um país periférico como é Portugal.

O que distingue os dois líderes dos partidos que poderão formar governo?

Os portugueses têm que olhar para um e para outro líder, para as características de um e de outro, Sócrates e Ferreira Leite, e verificar, não a onda de simpatia, que Manuela Ferreira Leite agora é exaltada na Comunicação Social como se tivesse qualidades extraordinárias, mas o que cada um já fez e quer fazer. Ela já esteve no Governo, nunca resolveu questão nenhuma, esteve na educação e não propôs uma única reforma, e no fim deixou o país com um défice elevadíssimo. As pessoas sabem o que ela já fez; não sabem o que ela quer fazer com o país, porque ela não anunciou rigorosamente nada. As pessoas, quando chegar a hora exacta, vão ter que decidir entre Sócrates, com as suas qualidades e defeitos, e uma pessoa que não apresenta propostas, nem anuncia o dia em que irá fazê-lo.

É naturalmente um defensor de Sócrates, tanto mais que são amigos. Porque razão decidiu deixar de lhe falar?

Não foi bem deixar de lhe falar; não tenho relações nenhumas com ele desde que ele assumiu funções no governo como primeiro-ministro. Encontrámo-nos só uma ou duas vezes.

Mas porquê? Porque é que não pode continuar a relacionar-se com José Sócrates enquanto ele for primeiro-ministro do país?

Quem não pertence a nenhum partido, nem pretende tirar partido de nenhuma natureza, quem tem a posição que eu tenho, é muito livre. É sempre a minha posição que vinga, quer quando defendo José Sócrates, quer quando ataco o Governo. Não tenho telhados de vidro, francamente! Não recebo recados do primeiro-ministro ou de quem quer que seja para defender A, B ou C. Escrevo o que quero e o que me apetece. Portanto, sinto-me muito confortável nesta posição distanciada. Dou-lhe [a Sócrates] também uma abertura total para que faça o que quiser como entender. E percebo-o, porque ele é, no momento actual, e apesar de algumas coisas mal feitas e de algumas trapalhadas, uma pessoa com enorme coragem, que realizou reformas, que trabalhou incansavelmente em situações extremamente difíceis e com ele o país efectivamente avançou alguma coisa. É por isso que o defendo. Se não fosse assim, não o defenderia. Quando lá esteve o engenheiro António Guterres, que é uma pessoa que considero, por quem tenho o maior respeito e a maior consideração, mas a minha posição era contra a forma como governava o país. Pois bem, escrevo com liberdade: quer quando critico, quer quando elogio. Não ando ao serviço de ninguém, sou um ser isolado que escreve o que pensa e como entende.

É por causa dessa sua liberdade que foi banido da SIC e saneado na RTP?

Sabe, esta liberdade tem mesmo um preço – e é elevado. Sou uma espécie de homem maldito neste contexto, porque não sou ligado a nenhum partido político. Sou um homem da esquerda democrática, mas não hipoteco o meu voto nem a minha sensibilidade a coisa nenhuma. Costumo agir de acordo com a análise que faço, de acordo com a maneira como vejo as coisas, e sempre com frontalidade. Não ando a dizer as coisas com rodriguinhos com aqueles “Sim, mas...”, não tenho posições dúbias. Quando gosto gosto; quando não gosto não gosto - e digo-o explicitamente. Esta maneira de ser tem um preço elevado e eu pago-o.

Esse preço é terem-no privado de fazer aquilo que porventura melhor sabe [a TSF e a SIC são produtos seus] e mais gosta de fazer?

Provavelmente, sim. Não me apresentei a ninguém para realizar nenhuma dessas tarefas, sempre soube encontrar os meus caminhos. Hoje, sou professor universitário, dou aulas a alunos de mestrado, escrevo nos jornais, participo num debate na televisão [Discurso Directo, na RTP N], realizo projectos, até mais para fora do país, onde por incrível que pareça os méritos do meu conhecimento e da minha actuação são mais reconhecidos do que dentro do país. Tenho feito projectos de Televisão e de Rádio para vários países do mundo.

Se Francisco Balsemão, apesar das relações cortadas, lhe pedisse para voltar à Sic, pensava duas vezes?

Há um contencioso. Quando me despedi do dr. Balsemão, ele estava muito emocionado e disse-me: “Ó Emídio, não se esqueça que não fui eu que o pus fora da Sic; foi você que se demitiu e quis sair”. É completamente verdade. Mas falta um pequeno detalhe: ele julgou que poderia levar por diante uma estratégia em que eu ainda seria mais promovido dentro da Sic, mas que permitiria que se fizesse uma coisa com a qual não estive de acordo, e que foi o despedimento anunciado por ele próprio de 200 pessoas. E mais umas tropelias que foram feitas por alguns seres menores da estação. Essa é que é a questão importante. Por dinheiro nenhum do mundo faria qualquer coisa sem que isso estivesse completamente ultrapassado. Depois, também não sou o santo milagreiro, a Sic só se recupera com uma valorização de competências, com a reorganização da equipa, e com dinheiro. E a Sic não está nessa situação. O dr. Balsemão tem uma prática, que não foi exercitada enquanto eu lá estive, porque me opus a ela. E que é isto: se ele tiver um bom jornalista a ganhar 1500 contos, não se importa que ele saia para o substituir por um que ganha 500, porque poupará mil contos. É esta contabilidade que está em uso desde que saí na Sic. Para mim, esta estratégia não é válida. A Televisão e os meios de Comunicação Social em geral valem pelas pessoas, elas são mais importante do que as máquinas, são decisivas. Por isso, é nas pessoas que têm competência e validade que se deve investir; não nas máquinas.

Hoje, quando olha para trás, o que sente quando encara o desvirtuamento dos projectos que criou, como a TSF e a Sic?

Sinto, em primeiro lugar, que cumpri bem a minha missão. A TSF é praticamente a única rádio de informação que sobreviveu. E era uma rádio que, ainda há bem pouco tempo, dava lucro. Era um projecto viável e importantíssimo para o país. Apesar da dispersão, às vezes, de uma linha que é fundamental no formato da TSF e que não poderia ser tocada. Mas isso é outra questão. A Sic mostrou – e foram 10 anos – que era um case-study a nível mundial. Eu recebia todas as semanas pessoas que vinham de todos os países do mundo para perceber qual era a nossa fórmula, como é que nós conseguíamos ter tanto êxito e tanto êxito comercial, o que significava muito dinheiro. A Sic ganhou muito dinheiro enquanto lá estive - agora só perde. Mesmo a Sic Notícias, que é um projecto meu - fui eu que o propus à administração do dr. Balsemão e o pus de pé - mesmo esse foi sempre um projecto bem sucedido. Sinto orgulho por isso. E sinto mágoa quando os vejo a desfazerem-se por decisões pequeninas, por visões muito atabalhoadas, pouco profissionais, e que tem causado muitos danos à Sic.

A Sic é irrecuperável?
É cada vez mais difícil, mas para mim não existem praticamente impossíveis. A Sic, se reunisse as condições que há pouco referenciei – e podia detalhar – é evidente que seria recuperável. A Sic deixou-se ir caindo, foi caindo sucessivamente, desde que saí não parou de cair. Agora está no chão.

Fez mais amigos ou inimigos na televisão?

Não sou uma pessoa neutra, provoco rejeições e adesões. Mas não há semana nenhuma em que não receba telefonemas das pessoas que iniciram o seu trabalho na Sic comigo. Telefonam-me frequentemente. Mesmo as pessoas da RTP - e só lá estive dez meses -, telefonam. São pessoas a quem ensinei a dar os primeiros passos, e que estão hoje a dirigir a própria RTP. Tenho muitos amigos, pessoas que se eu dissesse: “Vamos iniciar um projecto A ou B”, estariam ao meu lado imediatamente, não tenho dúvidas. Mas esta minha atitude, este meu carácter (que não posso alterar), e que me leva a dizer as coisas na cara das pessoas, com coragem e com frontalidade, mas depois também a ser profundo amigo das pessoas que trabalham comigo, dando o corpo às balas sempre que necessário pelas minhas equipas, gera inimizades fortes, mas também gera muitos amigos.

Esses telefonemas atenuam ou inflamam as saudades que possa eventualmente sentir desses tempos?

Com franqueza, não vivo angustiado por causa dessas matérias. Não vivo infeliz. Vivo completamente realizado desse ponto de vista. No dia a seguir a ter conseguido um sucesso, já não penso nele. E um mês depois, já nem me lembro dele. Porque já estou a trabalhar no seguinte. Se a minha vida não foi pela via A, foi pela B. Houve um momento, depois de ter saído da Sic, em que todas as portas ficaram fechadas para mim. Muito bem, aceitei. Fui dar aulas, que é uma coisa que gosto muito de fazer, já o tinha feito antes. Hoje, dou aulas na universidade, o que me dá muito gozo, e estou a escrever alguma coisa que há-de sair por aí um dia destes. Faço coisas que me dão enorme satisfação intelectual e muito prazer. Sou um optimista, sabe? Encontro sempre um caminho para a realização profissional. Porque há sempre mais do que um caminho. Mas tenho muito apreço pelas pessoas que me telefonam. Almoçamos frequentamente, jantamos, vamos mantendo a ligação e a amizade. Aliás, é incrível, porque todas as semanas me dizem que corre o boato de que vou para aqui ou para ali.

Ainda nenhum desse boatos se concretizou. É por ser um homem caro?

O dinheiro nunca ditou os caminhos da minha vida, com franqueza. Os projectos, sim, A exigência que ponho nas condições de que preciso para realizar um projecto, nisso sim, sou absolutamente exigente. Mas também, até hoje, nunca falhei nenhum projecto. Nunca! Isto é uma coisa que se faz de detalhes, é preciso reunir as condições todas. Depois, evidentemente, também gosto de ser devidamente considerado e remunerado em função do que faço. Mas fui para Sic sem dicutir sequer o meu salário. Depois, deixei claro ao dr. Balsemão que no dia em que a Sic vencesse, ele teria que me pagar devidamente. Evidentemente, pagou-me de acordo com os resultados lhe dei.

Há uma série de frases a que estará sempre inevitavelmente associado. Uma delas...

...É a do presidente... [risos]

Tal e qual: “É tão fácil vender um presidente como um sabonete”...

Já estou conformado com a ideia de que isso acompanhar-me-á até à morte, muito embora essa farse não seja rigorosa, não foi bem isso que eu disse. O que eu disse é que havia uma estação que tinha 50 pontos de share tinha uma enorme probabilidade de expor até ao âmago qualquer coisa e que, nesse contexto, a coisa venderia, interessaria, atrairia a atenção das pessoas. Usei o verbo usar neste sentido que expliquei, sentido que é muitas vezes usado pelos jornalistas. Depois, a frase foi retirada do contexto e ficou para sempre como um negócio de venda.

De qualquer forma, o que lhe queria perguntar, mesmo substituindo o verbo vender, é se prescindiria, se trocaria, o actual Presidente da República, Cavaco Silva?

Não. O Presidente da República é uma pessoa que está legitimamente a cumprir a sua função, eleito com o voto maioritário dos portugueses, voto directo e expresso. Tem não só toda a legitimidade como sempre teve a minha atenção, o meu empenho e o meu total respeito. Sempre foi assim, sempre disse, de forma explicita, o que pensava dele e sempre o elogiei pela sua acção, pela forma como faz o seu trabalho.

Isso vale também para as mais recentes intervenções dele?

Pois, confesso que ultimamente não tenho gostado de ver o Presidente da República. Em vez de ter um exercício de magistratura de influência nas coisas do dia-a.dia, está a ser muito interveniente. Não faz sentido que seja um protagonista político do dia-a-dia, como o são os líderes partidários. Francamente, é uma coisa que me desagrada bastante.

No caso concreto do negócio PT/TVI, acha que ele esteve bem?

Não, esteve bastante mal. Mesmo antes, quando falou da data para as eleições legislativas, citando uma sondagem que não conheço, e que ainda não ouvi ninguém dizer que conhece, esteve mal. Devia ser mais cuidadoso a esse respeito e sobre essa matéria concreta, devia fazer o que já fez noutros casos. Dizer: “Esse assunto não é para ser discutido agora. Informarei os senhores jornalistas na altura própria e com os fundamentos que presidem à minha actuação”. Do meu ponto de vista, era assim. Também não vejo com bons olhos a intervenção nesta questão do negócio de empresas privadas, parece-me extemporâneo, precipitado. Não consigo entender. Há qualquer coisa que ainda não entendi, mas que mudou na atitude e no comportamento do Presidente da República.

Ter-se-á Cavaco Silva deixado entusiasmar com a ideia de Manuela Ferreira Leite, uma amiga, poder ser primeira-ministra?

Manuela Ferreira Leite é um produto de Cavaco Silva, foi ele que a exultou e que implorou para que ela assumisse a liderança do PSD, quando isso estava longe dos seus mais recônditos propósitos. Não sei se, por isso mesmo, vejo o Presidente da República tão interessado em intervir, quando o papel dele deve ser de neutralidade em matérias politico-partidárias. E não gostaria que assim continuasse, porque ele sempre actuou com enorme rigor, com enorme isenção, e não vejo porque há-de alterar isso, esse comportamento que o dignifica aos olhos dos portugueses. Ele até pode teorizar, ajudar, dar opinião sobre o caminho económico que as empresas devem presseguir, a isso chama-se magistratura de influência. Mas tenho a certeza de que se Cavaco Silva continuar no estilo de imiscuir-se em coisas da governação, ou da vida das empresas – como agora, a meter-se num negócio cujos detalhes não se conhecem ainda na totalidade, e ele decide intervir sem sequer ter pedido uma explicação ao primeiro-ministro -, se ele continuar a fazer isso como rotina, vai ver de que maneira o povo português o qualifica.

Fora de tudo o que falámos até aqui. Morreu Michael Jackson, rei da Pop. É sensível ao desaparecimento dos ícones que marcaram uma geração?

Sou, completamente. Ele era um génio, por mais boatos que tenham aparecido, também esses sem nunca terem sido confirmados. Ele é um ícone, um valor indestrutível da musica pop e que nunca se apagará no tempo.

Alguma vez dançou o “Moonwalk”?

[Risos] Muitas vezes, gosto muito de dançar. Nasci em África e quem nasce em África gosta de dançar.

Helena Teixeira da Silva

Tags: EMÍDIO RANGEL /

Mário Crespo: onde saiu/não saiu a notícia pouco tempo depois

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